LÍRIOS E QUEIJOS
Para um exércício a Professora estendeu muitos postais no chão e um deles logo me escolheu: uma mulher, abaixada, de costas: só o desenho de seu quadril coberto pelo VESTIDO que revelava suas pernas, lembravam minha vó.
LÍRIOS e QUEIJOS é resultado do relacionamento gerado entre essa imagem e o conto MUSEU de Queijos de Calvino: entre sintaxe visual e sintaxe verbal.
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Lírio e Queijos tem seu start em um exercício de leitura de imagem.
Muitos postais foram colocados no chão para que cada aluno escolhesse um.
No primeiro momento eu já sabia qual era o meu.
“não é questão de escolher seu próprio queijo, mas de ser escolhido por ele.
Há uma relação recíproca entre queijo e freguês.
"Mais uma vez o feminino e o vestido se apresentam em meu trabalho.
À medida que meu olho fazia o percurso sobre aquela imagem, ela já se articulava
plasticamente em meu pensamento.
Ao ler "Museu de Queijos" parecia que Calvino fazia uma leitura de meu raciocínio visual.
Ele escreve com o olho.
Alí está o olho de um observador, um olhar de quem desenha.
A plasticidade daquele texto literário se impôs ao meu trabalho: ora como compreensão,
ora esclarecendo, ora inquietando, ora promovendo E eu aceitei o modo como esse texto visual
se apresentava e se constituia.
Ele mesmo pedia: uma palavra, um gesto, memória, lírio, queijos...
"... Há quem extraia dos encontros dessas etapas fortuitas, inspiração para novos estímulos
e novos desejos: muda de idéia sobre o que estava para pedir ou acrescenta um novo nome à sua lista;
e há os que não se deixam distrair nem mesmo por um instante do objetivo que vinham perseguindo".
Lírio e Queijos
Mostra o processo de criação através da investigação da forma aliado ao conhecimento,
que diferencia o fazer objeto do fazer arte.
Quando Calvino fala de queijos, ele não fala somente de queijos. Aquele queijo pode ser eu,
pode ser o rei ou um copo, ou um lírio. O interesse não está no objeto, mas na forma de articular
esse objeto com o todo.
E a forma do autor tem dignidade de Midas. Não são só queijos, não é isso ou aquilo.
Ele fala de um espaço que para muitos é o vazio, ele toca esse vão que para muitos é o nada.
E nossa língua é tão eficaz quando define esse espaço: entre.
E a língua treme ao pronunciar, o seu som já significa, já é íma.
Calvino consegue imantar esse entre/espaço impregnando aí a qualidade de relacionamento.
"... Pressentir que por trás de cada queijo existe tudo isso".
O modo de falar de Calvino é o modo de perceber e estabelecer relações.
Ler Queijos é como ler um quadro - ali estão elementos da sintaxe visual.
... "a língua é o sistema"
MANTOS DA MÃE
Aquele que lá na infância era nosso esconderijo cortinas e lenços,
um dia se faz Capela
e de VESTIDO se faz MANTO.
Para o VESTIDO SAGRADO escolhi por devoção
o MANTO de Nossa Senhora Aparecida.
A criação de cada MANTO é simples,
aproveita elementos que sobram do cotidiano.
São retalhos, linhas, miçangas, pequenos objetos,
que ganham vida nova ao serem combinados à tintas,
papéis, palavras e desenhos.
Fazer um MANTO é como olhar a cidade de Aparecida,
seu movimento, forma e cores,
no ir e vir de camelôs e romeiros.
Acredito ser esse trabalho uma bandeira de fé
que não estampa apenas o meu nome.
Sou só uma entre tantas Aparecidas.
Sinto aparecer ali,
na criação de cada MANTO
uma feitura que combina o simples e o exuberante:
a alma plural do povo brasileiro.
Dedico esse trabalho às mulheres
simples do meu país,
que como minha vó
debruçam suas vidas
numa máquina de fazer vestidos.
E ali debulham suas lágrimas e alegrias
no tic tic das costuras e continhas
das Ave Marias.
Agradeço a Deus a Graça de ter fé.














role com o mouse sobre a imagem para ler o texto do crítico de arte Walter Addeo
